A maior lição

Ele sentia algo que não conseguia definir em palavras. Sabia que era um carinho imenso, um amor gigantesco, mas não sentia que estes fossem significados fortes o suficiente. Conseguia perceber seus sentimentos crescendo a cada dia, preenchendo todos os vazios do seu coração. As cicatrizes do passado esvaneciam-se com abraços, as dores que lhe atormentavam sumiam com beijos, e a tristeza que antes cismava em lhe rondar, temia o laçar das mãos. Tudo era um grande motivo para sentir-se vivo. Era possível contar cada segundo dos ponteiros do relógio em ansiedade. Saber de cor a duração do tempo, apenas olhando para o céu, como quem espera. 

Nunca poderia encontrar um instrumento capaz de medir aquilo. Percebeu que se sentisse tudo isso, ainda que sozinho, já poderia olhar para si mesmo e pensar que sim: havia amado de verdade. Demorou pra entender que no final, talvez isso bastasse. Dizer um dia que sentiu-se nas nuvens. Poder sorrir e saber que amou com tudo que pôde, com cada centímetro do seu ser. Também sabia que poderia nunca mais voltar a sentir uma coisa assim. Mas ainda existia. Estava vivo dentro dele. 

Agarrou-se ao seu sentimento como se fosse a primeira vez apaixonado. Levaria como troféu pro resto de sua vida. Ainda que o amor trouxesse incertezas, ele era feliz. Ele tinha toda aquela chama queimando por dentro, aquecendo-o quando sozinho. E nem todas as lágrimas que ele chorou conseguiram apagá-la. 

Ele não acreditava mais em contos de fadas, e o pra sempre mostrava-se cada vez mais irreal. Mas conseguia sentir cada pulsar de um amor verdadeiro, cada lembrança que o fazia arrepiar. Cada minuto de saudade que lhe apertava o coração, e o silêncio que o mundo emitia quando não tinha sua voz ecoando. 

 

Talvez ele não precisasse se sentir amado, e sim, aprender a amar.   

– HR

Mais que palavras

Cansado, iludido, magoado, ferido. Sem rumo, sem festa, no escuro, a promessa, de tudo ou de nada, da fala. A palavra que jura, tão frágil, tão nula, e tão rápido, acordo e me vejo sozinho, buscando um ninho, em meio ao tufão. Sussurros que ouço, criados na mente, que vazam aos poucos em meu crânio doente. Peças tão claras que me assombram o dia, frases tão raras que sua boca dizia, atos tão curtos e não esperados, somente ilusões em um vitral embaçado. Que me adianta sua voz tão doce, recitando poemas de Clarice, Amado e Quitanda, se o tempo que corre, passa e reclama, declama: “será esse o correto? É assim que me ama?”

Fácil demais

Ele já havia bebido alguma coisa, quando se deu conta que pensava naquilo de novo. O álcool não funcionara, como ele havia suspeitado. Serviu somente para distrai-lo momentaneamente. Infelizmente, era muito fácil para ele lembrar o porquê de estar ali, bastava pensar em si mesmo. Divagar sobre tudo ainda o fazia tremelicar. Não tinha com quem conversar, talvez isso o sufocasse. Prometera nunca mais abrir aquela porta do seu coração. Estava lacrada, e só ele conseguia sentir cada centímetro que latejava por atenção, em um soneto cruel que recitara para si. Sentia dor, tristeza, incompreensão. Debatia-se em suas conclusões errôneas e sem rumo, gritava para dentro que nunca mais seria o mesmo. Chorou, se abraçou, se consolou. Bebeu mais um pouco, sentindo o salgado das lágrimas na beira do copo. Sentia-se o ultimo homem da terra, abandonado, isolado. Sozinho. E percebeu, em meio a sua loucura, que só fazia sentido para ele, que só podia tentar entender. Para alguns, é somente fácil demais. Fácil compreender, deixar os dias passarem. Essa era sua dor. Entender que para ele, nunca seria tão fácil. Nada parecia ser, e aparentemente, não ia mudar.

Ele só queria sentir o mesmo. O mesmo sabor do vento, o mesmo gosto das coisas. Ver as mesmas cores.

Ele só não queria que fosse tão fácil deixar o tempo passar.

 

-HR

Na Morada

Ele era um cara que, por muito tempo, vagou pelos seus erros achando que nunca iria acertar.

Ela era alguém, que por mais que o amor demorasse a aparecer, não deixou de acreditar.

E precisaram de um empurrão do destino para que enfim, pudessem entender.

Foram necessárias duas viradas no ponteiro do tempo, para que o universo se alinhasse os deixassem ver.

Deram, cada um à sua maneira, uma chance para aquilo que mostrava-se tão certo.

 Arriscaram seus peitos, brandiram seus abraços e abaixaram as defesas de seus respectivos castelos.

 Falo por ele, por redigir em seu corpo, que nunca sentiu algo como sente no agora.

 Apesar de ter passado por poucas e boas, saber que onde vive o amor, o medo se aloja,

 Ele não consegue pensar no sentido, do simples ato de andar ou respirar,

 Se ela não estiver ao seu lado para lhe acompanhar, ou ao menos, lhe inspirar.

 Ele sabe que consegue, de vez em quando, arrancar-lhe suspiros.

 Seja em meio ao calor das paredes, ou nas crises de risos.

 O importante no fim, é tê-los felizes.

 Não importam as métricas, nem as diretrizes.

 Ele continua sendo um cara, ainda vaga pelos erros, mas compreendeu o que é o amor.  

 Ela pode ter a certeza que a vida demorou, até a desanimou, mas lhe trouxe o amor que ela sempre sonhou.

 

-HR 

O Verdadeiro Pefume das Rosas

O que você faria, se um belo dia, eu deixasse pra trás todos os sorrisos que costumo lhe entregar? O que você me diria, se sem nenhum tom de aviso, as flores que pra ti que cultivo murchassem e eu nunca mais as regasse, deixando-as descansar? Como o tempo iria te explicar a perda, e que é feito de seda, o amor que teci-lhe e que cisma em rasgar? 

Demorei muito pra entender a verdade, e que existe uma validade, se você quer saber. Converso comigo por horas, sem pressa ou receio, e em meus devaneios, encontro palavras que não quero escrever. São tantas comparações abobadas, textos inteiros escritos à mão, em vão, que vão e não mais voltarão. 

Faço de mim um alvo, em constante movimento, para que sua flecha em um certo momento, estraçalhe meu peito em pedaços. Corro para ver se dar tempo, de recolher cada peça partida, colar toda parte esquecida, antes de parecer tarde demais. 

Mas quando muito se repara, uma hora se revela. As cicatrizes em cores, marcas da guerra, não mais se escondem nas fendas lacradas. E mostram pra todos, com olhos molhados, segredos guardados, em uma caixa quebrada. 

Viverias você sem o que sinto? A paz voltaria ao seus braços, ainda que sem meu abraço você prosseguisse? As doces palavras que hoje recito, mesmo que sozinho, iriam voltar para te lembrar dos antigos beijos e de meus carinhos? 

Pergunto-te hoje pois não viveremos o amanhã. E antes que este apareça, e me lembre o que talvez você esqueça, sentirei o aroma das rosas, enquanto as tiver por perto de mim. Prefiro colhê-las no hoje e sorrir, do que ter que chorar pra regar meu jardim.

 

 

 

Sentidos

Ainda que meu coração palpitasse tão forte, quase saindo do peito, queria enterrar minhas garras em sua pele e te puxar para mais perto. Seus gritos e cânticos, seus pedidos embriagados de prazer, me imploravam para esquecer meus sentidos e me aprofundar cada vez mais em seus amores. Seus cabelos encobriam minha visão, sua voz enchia meus ouvidos, sua boca encaixava na minha. O ar cooperava com cada segundo que cismava em passar. Cada centímetro do seu corpo me servia de abrigo, onde podia repousar minhas mãos. Olhar nos seus olhos só me recordava o porquê de estarmos ali, laçados em calor.

Aquele era um baile que não me deixava parar de dançar. Era a música que eu queria ouvir, o cheiro que queria sentir. Eram os braços que queria envolta do meu pescoço, os lábios que queria beijar. Era onde eu queria entrar e ficar pelo resto da noite, sentindo você me sentir. Até que nossos corpos fossem vencidos pelo cansaço, e as sobras do amor te colocassem para dormir.
[18/05/14]
Existem tantas formas diferentes de se viver um amor. Tem aquele que queima voraz, não resiste ao toque nem ao desejo. Aquele mais brando, porém tão carinhoso e perfumado, que incomoda os demais. Ainda existe um terceiro, que cria um vínculo tão forte, uma cumplicidade que destrói as incertezas e nos acalma por dentro. E tantos outros, tão bonitos em suas essências singulares.
Se me perguntassem qual deles é o nosso, eu diria que temos todos.
[19/05/14]
-HR

Versos que recitei

Os versos que antes recitava, agora oscilam em minha garganta, com medo. Todos os olhares que um dia me prenderam por tantas horas à um alvo fixo, escapam da minha visão. O toque que antes me causava um misto de paz e harmonia, hoje me traz incertezas tão dúbias, que temo me aproximar.

O chão se abriu tão rápido, levou as paredes embora, me deixou a flutuar em uma escuridão quieta e intacta. Senti meu corpo vibrar em todas as frequências, e isso, hoje, me dá tempo. Consigo pensar em cada passo dado, cada sorriso, cada ação.

As palavras que eu escrevia só conseguiam transmitir amor. Ontem, eu podia descrever todas a coisas bonitas que nascem no mundo, o poder dos beijos e a segurança de uma grande paixão. Hoje não busco entender o que não posso controlar. Minhas palavras são pesadas, amarguradas e tristonhas.

O sopro do ar já não me comove. As nuvens no céu não me intrigam. Nem o escurecer me atrai como antes. Não pinto mais quadros, não vejo mais cores. Não sinto sabores.

A minha agonia é como a de um pássaro contido, com um céu inteiro para voar. Meu peito queima, implora, mas o faz por não saber que já não há esperança de acender, ou ascender. Não sou mais o que era, não tenho mais o que tinha, não minto mais para o espelho.

Os versos que escrevi, cada letra com sabor diferente, palavras repletas de carinho. Eles estão aqui. Mas não os leio mais. Não me reconheço em meio aos textos que assinei.

Eu não sinto mais nada, exceto a falta do que fui.

Longe do alcance do vento

Será que o vento que sopra à minha janela é capaz de me trazer respostas? Este que, tão insistentemente, cisma em bagunçar meus cabelos e secar meu rosto?

E o som, que envolve o dia, será que ele é capaz de preencher as lacunas das dúvidas que crescem em mim, já que muitas vezes tentou calar meus pensamentos tristonhos e substituí-los por música?

Ah, noite. Você que ouviu por tantos anos meus problemas, sem em nenhum momento me julgar. Às vezes, até chorava comigo. Preciso de você agora.

Preciso de um rumo, lua. Tu que já me inspirastes para tantos textos no passado, agora cobro-te pela primeira vez. Me guia. Você, que sabe mais do que qualquer estrela como absorver o calor, a luz, me ensina a caminhar contigo, seus passos de dança nesse salão escuro que chamas de céu.

Senhor sol. Talvez você tenha a cura para o que sinto. És tão grandioso, o centro de tudo. Perguntar-te-ei: Por que sinto frio dentro de mim, se ainda queimas com orgulho aí em cima? Me diga, por que não me derreto mais como antes, senhor sol, e por que vejo tudo escurecendo, mesmo ainda sendo dia?

Tudo parece tão distante. De repente sinto pontadas, que me parecem justas, mas que voltam para me lembrar de erros que prometi nunca mais cometer. Promessas. Nada mais que palavras seladas por um juramento, frágeis como uma rosa.

Se a vida me ensinou alguma coisa, foi a ficar sozinho. Ser meu próprio psicólogo, tratar meus problemas com carinho, conversar comigo mesmo. Estar sempre ali pra mim, como ninguém nunca esteve.

Pouco a pouco, esculpi minha máscara. Talhei cada centímetro por anos, mas me recusei a usá-la. Ainda que sua beleza fosse notável, uma falsidade tão bela com o mais verdadeiro sorriso desenhado, sempre dei minha cara a tapa, falei e mostrei, tudo que pude, a quem quisesse ouvir. Meus pensamentos eram um livro aberto, mas com páginas escolhidas cautelosamente.

Hoje, encontro uma razão para usá-la. Fui enganado todo esse tempo. Os livros mentem. As poesias te enganam, e acreditar nelas me tornou fraco demais quando a minha vez de escrever uma chegou.

Por tudo isso, vento, não precisa mais tentar enxugar minhas lágrimas. Elas estarão seguras, no escuro do meu rosto, onde você não poderá alcançá-las.

-HR

 

Sonhos

Ele acordou com um filete de luz de sol que esgueirara-se pela cortina. O dourado preencheu o escuro, e ele resolveu abrir aquele lado da janela, para deixar o calor invadir seu quarto. Olhou em volta e achou tudo bonito. A parede que apresentava falhas na pintura, tinha seus furos preenchidos pelo ouro. As fotos no mural pareciam ainda mais alegres, e até alguns papéis rasgados sobre a escrivaninha, tinham seu charme jornalístico naquela manhã. Em sua cama, ela brilhava. Sua pele refletia todo suor da noite anterior. Tirou alguns fios de cabelo que cobriam seus olhos e decidiu-se por deslizar o cobertor de seu corpo até o chão. Queria vê-la por completo. Suas curvas delicadas, suas costas lisas e macias, o contraste dos cabelos negros com a pele. Beijou seu rosto com ternura. Ela, instintivamente, passou o braço pelo seu peito e aconchegou-se próximo a ele. Percebeu ali que o calor dela era mais forte que o sol quente que invadia o aposento. O bater do seu coração era uma sinfonia com o barulho da floresta que norteava seu condomínio. Seu respirar, suave, quase como uma morte doce e silenciosa. Podia observá-la o dia inteiro.

Fechou os olhos por alguns minutos, como um ateu que agradece à algo por aquele momento. Abriu novamente e não era dia. O sol havia sumido, o calor desaparecido, e a solidão o rodeava. Levantou, suando frio. A cortina balançava sem vida, deixando uma luz pálida iluminar seu jardim. A lua brilhava, sem graça no céu, coberta por nuvens e ameaçando retirar-se. Percebeu que sonhara. Sentiu-se enjoado por acreditar tão piamente que aquilo era real. Debruçou-se sobre a janela, deixando o metal gelado encostar em seu estômago nu, e acendeu um cigarro. Olhou para a fumaça, que subia sem rumo ao encontro das irmãs, e confirmou que sim, foi um sonho. Nada além de um sonho. E que mesmo tendo sido agradável, lembrou-se de uma frase que rabiscara em algum lugar: “se você não sonhar, nunca saberá que existe algo além da realidade. Mas se viver em um sonho, não terá mais nada para acreditar além daquilo.”

Depois daquela noite, ele percebeu que a realidade era muito mais dura e cruel.

Pegou um papel solto da mesa e uma caneta sem tampa. Redigiu a lição da noite, colocou seus fones de ouvido e dormiu. Um sono real.

Ele nunca mais sonhou. Não aquele sonho. Não aquele sol. Não aquele calor. Aquilo não fazia mais parte dele. E o que parecera uma eternidade, uma ilusão tão vívida, havia se dissipado no horizonte.

“Vença suas batalhas. Ou seus sonhos serão para sempre intangíveis.” – escrevera.

-HR

Faíscas de ontem

Ele estava ali. Olhando nos olhos dela. Ainda assim, apesar de todo calor que ela proporcionara um dia, conseguia sentir as geleiras do seu corpo criando formas cada vez maiores. Seu coração era o último suspiro de fervor que poderia restar. Uma vela em meio ao gelo.

Ela fitava-o sem saber o que esperar. Sabia que o tinha machucado, e temia que fosse a última vez. Sua respiração traçava uma personalidade que ela jamais tinha visto nele: um homem magoado. Não amargurado, ou chateado.

O silêncio dançou naquele salão pelo que pareciam ser décadas. Ele, então, ergueu sua mão direita e segurou a mão dela. Ele tremia. Seu pulso de calor que parecia restar, estava cada vez menor. Como poderia, depois de tudo, ainda tentar dar-lhe uma chance? Era o passado que gritava ao seu ouvido. Foram as lembranças do que pareceu ser o amor mais perfeito que conhecera, os melhores e mais completos beijos.

Mas memórias não poderiam mudar a verdade. O ontem não transformaria o hoje. Ainda que ele implorasse e gritasse para que nada daquilo fosse real, seria sua dor que o lembraria.

Quando ele soltou sua mão, ela começou a chorar. A vela em seu peito já era um símbolo. Não esquentava, não iluminava. Ele fora tomado pelo frio. Nem suas lágrimas, que deveriam mostrar-se amigas, quiseram sair.

Não houve sorriso. Nem abraços. Não se despediram.

Ela já soluçava baixinho quando ele olhou para o alto e viu que o tempo fechara.

– Cubra-se. Vai chover.

E virou-se para nunca mais voltar.

 

-HR